segunda-feira, novembro 09, 2009

A aposta de Warren Buffett no Futuro da América

Warren Buffett, o segundo homem mais rico do mundo e maior investidor de todos os tempos, fez no passado dia 3 de Novembro o maior negócio de sempre para a sua empresa, a Berkshire Hathaway. Trata-se do acordo para a compra da Burlington Northern Santa Fe (BNFS), uma ferroviária norte-americana com 131 anos. Um negócio bastante antigo, simples, tradicional, mas gerador, em 2008, de 18 mil milhões de dólares em receitas e de resultados líquidos de 2 mil milhões de dólares. Conta com 40.000 trabalhadores e aposta no negócio de transporte de todo o género de mercadorias e matérias-primas, operando um sistema de transporte ferroviário de 51.200 quilómetros de rotas por 28 estados americanos e duas províncias canadianas.

A Crise e os Investimentos de Buffett

A recente crise económico-financeira permitiu a Buffett, que havia acumulado ao longo de vários anos elevadas reservas em dinheiro no seu balanço (cerca de 40 mil milhões de dólares), entrar de novo em acção e aproveitar aquele que segundo ele próprio é o melhor período para se fazerem excelentes negócios: quando o medo está instalado no mercado. Deste modo, e no auge da crise financeira, no Outono do ano passado, investiu milhões em participações de empresas como a Goldman Sachs e a General Electric, em condições bastante precárias de mercado, em que estas empresas necessitavam, com urgência, de aumentos de capital para manterem os seus rácios de solvabilidade. Investiu, igualmente, em dívida de empresas muito bem posicionadas mas que devido às condições extremas de mercado verificaram dificuldades em aceder aos mercados de crédito e, por conseguinte, tiveram de procurar a única instituição com a força de balanço suficiente para conceder tais empréstimos: a Berkshire.

Agora, que a crise financeira parece dissipar-se mas quando existem ainda muitas dúvidas acerca da recuperação económica mundial e em particular dos Estados Unidos, Buffett avança com um investimento relevante e que o próprio já procurava há vários anos. Com este negócio, compõe o seu quadro de empresas subsidiárias com um negócio simples, de grande dimensão, gerador de valor e com excelentes perspectivas, do qual pode extrair dividendos em volume suficiente por forma a serem reaplicados noutras oportunidades de investimento. No fundo, trata-se da estratégia que sempre caracterizou Buffett e a sua empresa e que tão bons resultados obteve ao longo da sua história. Devido à relevância deste investimento no balanço da Berkshire, Buffett classificou-o como sendo a aposta definitiva da sua empresa no futuro da economia americana, algo que sempre defendeu devido às características intrínsecas e únicas da economia americana, afirmando que os melhores dias da América ainda estarão à sua frente.

Pagar Mais por Melhor

No entanto, este investimento não vai ficar barato. A Berkshire Hathaway, o conglomerado de negócios tão diversificados que vão deste a venda de tijolos e seguros de automóvel à distribuição de energia eléctrica e comercialização de mobiliário e carpetes, vai gastar cerca de 26 mil milhões de dólares para adquirir os 77,4 por cento da empresa que ainda não detém, uma vez que ele vinha comprando acções da BNSF desde inícios de 2007, detendo uma posição na empresa, antes desta operação, de 22,6%. Para tal pagará 100 dólares por acção em dinheiro e acções da Berkshire. Um preço que muitos analistas consideram o valor justo pela aquisição mas que não deixou ninguém excitado relativamente ao potencial de extracção de valor do negócio.

Apesar de ter estudado e trabalhado com Ben Graham - o pai da filosofia de Investimento em Valor - nos idos anos 50 e de posteriormente ter adoptado os seus princípios de investimento, que passavam por investir em empresas baratas em relação aos activos líquidos detidos ou em relação aos resultados que produziam e sempre com uma margem de segurança confortável, o maior investidor de todos os tempos já há muitos anos que vem evoluindo essa estratégia, passando a concentrar-se num outro género de empresas. Ele continua a defender princípios básicos do Investimento em Valor, mas ao longo dos anos, Buffett tem demonstrado ter disponibilidade para pagar um pouco mais por empresas que demonstrem possuir vantagens competitivas duráveis e que, desse modo, permitam-lhe ter um visão do futuro da empresa, do seu potencial de resultados e da sua posição no mercado, dando-lhe a confiança necessária e a margem de segurança confortável para o investimento. Tal habilidade única deriva de anos e anos de análise de negócios simples que Buffett entende extremamente bem, da aferição dos pontos fortes e fracos dessas empresas e da acepção da verdadeira posição competitiva de cada uma delas. Tal conduziu-o à pesquisa e compra de boas empresas a preços razoáveis em detrimento de empresas razoáveis a preços baixos. Foi nesta linha de pensamento que surgiram compras de participações em negócios como Coca-Cola, Gillette, Wells Fargo, Procter & Gamble, etc. Investimentos, na sua maioria, com mais de 10 anos e que provaram, efectivamente, possuir vantagens competitivas duradouras proporcionando excelentes retornos ao portfolio de investimentos da Berkshire.

De facto, a compra da BNSF não será a preços conservadores e os múltiplos do negócio são elevados considerando o contexto actual de mercado (um price Earnings de 18 e um price book de 2.7). No entanto, verificamos diversas características nesta empresa que caracterizam um excelente negócio: retornos dos capitais bastante acima dos seus custos; resultados crescentes nos últimos 10 anos; um balanço forte e pouco endividado. Verificamos, também, um posicionamento do sector e da empresa em particular que lhe atribuem um conjunto de vantagens competitivas duráveis: 1 - a existência de barreiras à entrada de novos competidores devido aos elevados investimentos necessários em equipamentos bem como de licenças de operacionalidade; 2 - um número de competidores muito mais reduzido devido ao processo de liberalização do sector iniciado nos anos 80 que contribuiu o processo de concentração de empresas; 3 - um meio de transporte tendencialmente mais eficiente devido ao aumento dos custos dos combustíveis e ao facto de o transporte por comboio ser quatro vezes mais eficiente, em termos de custos, que o transporte por camião; 4 - a exposição estratégica da empresa ao transporte de materiais para alguns sectores e mercados específicos menos cíclicos e com grande potencial de crescimento.

Neste contexto de mercado outros investimentos em empresas de elevada qualidade, grandes marcas mundiais, com pouca dívida, excelentes administrações e com boas perspectivas de futuro, estão disponíveis a preços bastante razoáveis. Empresas como a Johnson & Johnson, a General Electric ou a própria Berkshire Hathaway, que no âmbito desta operação de acquisição da BNSF vai fazer um split das suas acções de 1-50 passando as suas acções da série B, de uma cotação de 3.425 dólares para cerca de 68 dólares, deverão provar ser, a prazo, excelentes investimentos.

Hugo Roque